Olhos
Por trás das quatro cartas, à minha direita, meu tio nos observa com cara de quem vai bater, sustentando um cigarro no bico, dedo no ar como uma sonda. Suspensos, todos estamos, meu sofrimento parece que finda, acaba aqui. Meu primo, neste exato momento aperta minha coxa.
- Cê tá de blefe! Diz para distraí-los, enquanto os dedos me roçam, e meu rubor, acho que nítido, não o denuncia a minha tia.
Seu Nava, descartando uma dama: -Sorte sua, fedelho!Foi por um triz.
Graça põe dois dedos numa carta como quem manja, de rabo de olho. Não sabe jogar esse jogo, é distraída, vai pelo naipe, pelos números, basta que combinem. O tio sempre se gaba da habilidade tomada da clausura no período da repressão de 64, dos meses de fuga, dessa distração e de “Revolução em Cuba” que o fizeram bom jogador, meio biruta, também, das bordoadas que levou na cabeça, da polícia. Odeia jogar com a mulher, diz que é muito lerda. Ela repôs a carta, titubeante, novamente no alinhamento das outras e vai pro morto. Aperta as três, devolve a dama de copas. Não jogo bem, aprendo a cada noite uma cartada nova, percebo um dedo aqui, outra piscadela ali, nuvem de fumaça nos escondendo os olhos, os dedos do primo na vagina. Desconfortável, não posso dizer chega, as férias duram até amanhã pela manhã.
É a vez dele. A mão vai para as cartas.
As da minha mão são: um cinco de paus, um sete de ouros e um às de espadas, preciso dum trunfo.
-Vou fazer um café quentinho, garotos!
-Não quero tia, não precisa sair só pra isso.
-Nós queremos, diz o Nava, meu tio, metendo a mão na outra coxa.
Na distração do homem em acender outro cigarro, vejo que tem um quatro e um três de paus, a outra não vi.
Plaft! – É o dez de ouros que você quer, velho?
Vejo as intenções, um planeja que o outro bata e saia, que é regra do jogo para, assim, me mandar em gestos que antecipe meu sono. O círculo claro no holofote, as caras estranham-se, como animais numa contenda.
- É minha vez, é minha vez! Grito. Suas mãos, cada uma numa coxa. Não me defendem meus quinze anos ainda não feitos. Vou para o morto? Não sei, não sei.
A tia vem com a bandeja; ainda não joguei. Todos me olham agora.
Agosto de 2004