MELANCHOLIA:
Fui assistir ao filme, aqui na Fundaj, no Recife, no dia 13 de Agosto e me surpreendi mais uma vez com o trabalho ousado do autor Lars Von Trier. Ele é o premiado autor e diretor de Dançando no Escuro (2000) e Dog Ville (2003) . Nesses filmes, em especial, a comiseração humana é destacada nas figuras de Selma (Bjork) a personagem que perde a visão e sonha ser bailarina de Dançando no Escuro, e Grace (Nicole Kidman) a filha do gangster que procura refúgio no pequeno vilarejo de Dog Ville. Em Melancholia (2011) a película é dividida em dois capítulos, entitulados pelos nomes de Justine (Kirten Dunst) e Claire (Charlote Gainsbourg) irmãs com concepções sobre casamento e felicidade bastante distintos. A primeira é o tipo moderno, publicitária de talento, que é alçada pelo chefe, em plena festa de casamento, ao cargo de chefe de redação de sua agência. Mas no meio da festa cara promovida por seu cunhado John (Kiefer Sutherland), num castelo, em meio às regras de comportamento e etiqueta, de caricaturas e fingimentos, Justine se sente insegura e recua na decisão do enlace, acabando por encarnar magistralmente a melancolia que intitula o filme, decidindo pelo rompimento com o marido em plenas núpcias. Em oposição a ela, Claire, homônimo do segundo capítulo, é a irmão dedicada, boa esposa e mãe que acredita nas previsões do marido de que um planeta que se escondia por trás do sol, chamado Melancholia, não atingirá a Terra, apesar de estar em rota de colisão. A crença nas ideias positivistas do marido interessado astronomia, é posta a prova quando Claire decide pesquisar a respeito do planeta e descobre que a Terra será mesmo destruída. Um belo filme para os olhos, Melancholia, inicia com uma cena de 10 minutos em imagens em alta definção, começando pelo fim, no belo choque do planeta Melancolia com a Terra, apresentando em câmara lenta e imagens surrealistas Claire, Justine e Leo (seu filho) nos momentos que antecedem ao choque . Kirsten Dunst, que ganhou a Palma de Ouro pelo filme, dá vida à melancólica personagem sujeita a certeza de um fim do mundo e que espera passivamente. Lars Von Trier encara com profundo pessimismo os ideais aparentemente sólidos da união e da felicidade no casamento, o que é largamente destacado pelos diversos personagens que circulam no filme, com tipos como o caricatural e debochado pai das protagonistas e de sua mãe descrente e hostilizada por tentar denunciar os males da aparente felicidade no maniqueismo da representação social do matrimônio. Claire, encara o engano como uma traição, ao comprovar que o mundo exato previsto pela ciência do marido não era verdade. O choque coloca toda a Terra em sintonia com a melancolia, estado da alma humana inevitável, por mais que se queira maquiar, deixando Lars Von Trier mais uma vez com faca e o queijo, fazendo com que o expectador aceite como inevitável a falência dos valores arbitrários, o que tira muito da posição participativa do expectador nos questionamentos das verdades questionadas. Mas é muito bom.
domingo, 28 de agosto de 2011
sábado, 5 de fevereiro de 2011
OLHOS
Olhos
Por trás das quatro cartas, à minha direita, meu tio nos observa com cara de quem vai bater, sustentando um cigarro no bico, dedo no ar como uma sonda. Suspensos, todos estamos, meu sofrimento parece que finda, acaba aqui. Meu primo, neste exato momento aperta minha coxa.
- Cê tá de blefe! Diz para distraí-los, enquanto os dedos me roçam, e meu rubor, acho que nítido, não o denuncia a minha tia.
Seu Nava, descartando uma dama: -Sorte sua, fedelho!Foi por um triz.
Graça põe dois dedos numa carta como quem manja, de rabo de olho. Não sabe jogar esse jogo, é distraída, vai pelo naipe, pelos números, basta que combinem. O tio sempre se gaba da habilidade tomada da clausura no período da repressão de 64, dos meses de fuga, dessa distração e de “Revolução em Cuba” que o fizeram bom jogador, meio biruta, também, das bordoadas que levou na cabeça, da polícia. Odeia jogar com a mulher, diz que é muito lerda. Ela repôs a carta, titubeante, novamente no alinhamento das outras e vai pro morto. Aperta as três, devolve a dama de copas. Não jogo bem, aprendo a cada noite uma cartada nova, percebo um dedo aqui, outra piscadela ali, nuvem de fumaça nos escondendo os olhos, os dedos do primo na vagina. Desconfortável, não posso dizer chega, as férias duram até amanhã pela manhã.
É a vez dele. A mão vai para as cartas.
As da minha mão são: um cinco de paus, um sete de ouros e um às de espadas, preciso dum trunfo.
-Vou fazer um café quentinho, garotos!
-Não quero tia, não precisa sair só pra isso.
-Nós queremos, diz o Nava, meu tio, metendo a mão na outra coxa.
Na distração do homem em acender outro cigarro, vejo que tem um quatro e um três de paus, a outra não vi.
Plaft! – É o dez de ouros que você quer, velho?
Vejo as intenções, um planeja que o outro bata e saia, que é regra do jogo para, assim, me mandar em gestos que antecipe meu sono. O círculo claro no holofote, as caras estranham-se, como animais numa contenda.
- É minha vez, é minha vez! Grito. Suas mãos, cada uma numa coxa. Não me defendem meus quinze anos ainda não feitos. Vou para o morto? Não sei, não sei.
A tia vem com a bandeja; ainda não joguei. Todos me olham agora.
Agosto de 2004
quarta-feira, 19 de janeiro de 2011
O Descomeço
O Descomeço
Trago-me a braço até a beira do açude. Com lodo e algum esforço procuro, joelhos dobrados, beber da água salobra, como fazia em menino. Não consigo. Pequenos pontos de sol, mergulhado, cheiro de raízes, o vento sertão, vaca magra e paisagem de graveto e espinho. Por que vim? Família já miúda, sem axego, nem daria pela falta. Passadas horas, já beiram a embriaguez e começa a sabatina. Vamos nos olhar os quatro, afiados, olhos e línguas, e nos converteremos em grossas lâminas. João vai por a última dose, vai chorar, dizer que matamos pai e mãe. Eu, que não bebi muito, não terei como negar. Conheço-os, estão me esperando; Zica na porta, descascando uma laranja, enxerga o monte, formações de tabuleiro, com seus olhos aquilinos, azeita perguntas difíceis de resposta. Fiquei por responder algumas, sobre o passado.
Penduramos cartucheiras, pomos matulões e cangalhas. Há muita coisa na vida sem resposta. Mazé beijará minhas mãos, dirá palavras de conforto, mostrará fotografias dos seus sete filhos, cortará fatia de bolo. Eu, o mais velho, recebi de pai a obrigação da criação dos menores: João de braço, Zica feia feito reboco de parede ao lado da nossa mãe já tão doente,e Mazé, varrendo o chão de barro batido. Um mês depois que minha mãe morreu, nosso pai a seguiu, crente de que eu cuidaria dos pequenos. Agora estão lá, à minha espera, sob bico de gás, cotovelos sobre a mesa. Eu me escondi a vida toda, fugi às obrigações, traí o pai.
Sempre que chove ficam ziguezagueando no soalho da cozinha dezenas de varejeiras, de um azul-espelho, esperam a liquefação de nossa carne para fazê-la massa para as gordas larvas que tombam. Abrem-se portas, os meus suores contidos em pequenas caixas amontoadas que formam colunas...
{De repente não mais ouço, só espaço a espaço [Por que me olham como se as penas fossem apenas foices minhas? Eu trouxe boas novas. Eu, que tenho perambulado por aí, ser sem juízo, cogito a possibilidade de, um não sei que de negação de vocês. Demorou, mas eu me desfiz de seus porta-retratos e da sombra inquisidora do pai. (Ontem enterramos papai entre rezas e ladainhas. Zica cobre o rosto com um véu negro, mas ainda é uma velha num corpo de criança. João dorme entre panos nos meus braços. Eu vejo Mazé cuidar do velório feito mulher feita, acho que vai casar logo. Zica abandona o véu e segue rumo à cova com algumas flores de mato, acho que xananas) Eu me importo com o que os outros dizem. O Zé Morais não perdoou, castigou mais que pode, roubou rês de nosso quinhão] Eu, prostrado, só cruzo o batente com a permissão dos três. O Zé Morais aproveitou-se do nosso sofrimento e comprou quase que toda nossa terra, restou só a casinha e a cerca, bicho tinhoso}.
Têm agora ar de sofrebundos, lanhos pelos coros. Zica está ainda mais feia, enviuvou de pistoleiro. Derradeiro ano, de fúria e faca, tombei o Zé Morais. Dia cinzento, palavra uma, só o verme estirado, nos cortes. Aberei rumo do Riacho das Almas; tive febre, tive pesadelo, dormi numa tapera. Pés de chumbo, caminho repleto de cacos de vidro fininhos, ruins de tirar. Zica me viu e adentrou, estava espixada na parede, mirou de longe, foi avisar. Tenho a cara no quadrado que é a casa. Mazé agiganta-se perto do fogo de lenha, quase sem dentes. Posso imaginar o que dirão antes que principiem um teco:
Mazé sentará, oferecerá colo e meio sorriso. Zica dirá que é rameira e que tenho parte nisso. João cedeu meio corpo à mesa e ronca.
- Ah, chegou o mascate. Veio tripudiar, Mazé. Acha pouco ter vendido as terras e ter arribado pro Sul.
As duas tomam lugar a mesa. Sento-me de frente ao meu irmão.
- Mas quê que não, ele tá fugido. Deveras fosse notícia chã. É nada, conversa fiada. Ele pensa que derrubar o Zé Morais valesse tudo de volta. O que me admira Mazé é a cara de tacho. E nunca disse o que fez com o dinheiro das terras lá em Sam Paulo. Sofri o cão nas mão do Sivino. Teve de morrer, o diacho. Agora, carece nada não.
Mazé estica a mão sobre a minha, acaricia um tempo, pede que eu não ligue, que é descarrego. João acorda, indefesa criança que abandonei há trinta anos. Mazé entoa uma loa. As moscas brilham no soalho.
O tanto que os bodes mascam raiz à caça d´água ele segundou. Ganhou rumo, nunca faltou dia em que não pensasse nos irmãos, derrubasse lágrima. A noite vem mansa, interrogadora. Mazé é vazio, uma sobra de riso, balão cheio de calor. João se afasta e se recosta a parede do quintal, tem medo, não lhe sobraram culpas nem vontades. Aceitou fácil, derreia a cabeça, senta no chão ao lado do girau. Zica se foi chorosa e prometendo nunca mais voltar. Mazé me chamou, vimos juntos a lua cheia:
- Nós somos flor miúda, Mazé, duramos pouco, espaço de um acender e apagar de sol.
João também se foi. Acordei triste-só, pequenas fotos 3x4 nas mãos, no beco, em meio a sacos de lixo, no colo de Mazé, agora fria, que se despedaça.
2007
O Santo e o Dragão
O santo e o dragão
O apartamento cubículo está com manchas e rachaduras enormes e com Jorge numa das quinas, sentado, o único móvel. Os movimentos se resumem às unhas na barra da calça, o olhar envelhecido para o ângulo da janela. Não dormiu bem outra vez. Teve aquele sonho medonho das caveiras, das covas abertas... Sem outros parentes que o reconheçam, ele resta só. Na parede, uma pintura e um diploma. Jorge esteve, algumas horas atrás, com o jornaleiro:
-Sinto náuseas, ânsia de vômito, e folheio literatura, e nada... Senta um pouco e ouve, compro outro jornal. Você é o único que ainda aparece nessa sala, mesmo... Não vou à repartição há dias; eles nem ligaram perguntando, nem carta do correio, não se dão ao trabalho... Sabe, ando tendo umas idéias. Tomei uma decisão, entende. Vou pôr uma mulher nessa casa... E não é qualquer mulher dessas da rua, não, quero currículos, currículos. Vê só a lista que fiz. Uma donzela que saiba de tricot e costura, faça bom macarrão e sobremesas com pouco açúcar, sem vícios. Deve falar pouco, ser solícita... Resignada e... Ah, ter temperança, fidalguias... Mas, para trazê-la pra cá preciso tomar umas providências, dar um jeito nesse lugar, arrumar um sofá, um lençol de casal, umas cervejas...
Noventa graus de sol quando Jorge pôs os pés fora. A luz forte mal distinguia seu juízo e sua ânsia de voltar logo. Retornou com uma sacola com tesouras, agulhas, pedaços de tecido, duas latas de cerveja, esmaltes, até talheres e uns óculos de sol... E uma marreta. Uma reforma deveria começar pelas paredes, ele pensou, e tratou de por abaixo as infiltrações a marretadas. Os golpes ligeiramente abriram rombos, os rebocos e tijolos cavados amostravam vergalhões e canos, de onde começou a verter a água que lavou o chão, pôs baratas em vôo, causando o espanto dos vizinhos, já no saguão do prédio, planejando um fim praquilo. O barulho e o aguaceiro que descia pelas escadarias já atingiam outros apartamentos. Insetos e jornais velhos desciam pelas escadas, saindo pela porta da sala, entreaberta. Em pouco tempo, uma nuvem branca subia da janela, enquanto Jorge acertava tudo que era vértice. Quando as pancadas atingiram a fiação, um blecaute liquidou com a iluminação do prédio todo, e já se ouviam as sirenes dos bombeiros no quarteirão ao lado. Uma multidão se reunia dos lados de fora do prédio, e os soldados subiam ligeiros as escadas até o terceiro andar onde morava o rapaz... As estocadas haviam cessado... Um bombeiro, com pose de agente de polícia se esgueirava por entre os destroços, chamando o nome Jorge com força... Para espanto, e indignação geral, o guarda saiu de mãos vazias, não havia ninguém. O local foi devidamente traspassado por fitas amarelas de interdição. Ajeitada a fiação e limpo o ambiente, as coisas voltavam a sua normalidade.
No entanto, no banheiro, negligenciado pelos bombeiros, um enorme buraco havia sido feito. Quebrados azulejos formavam a boca por onde Jorge tinha passado, e de onde, no inicio da noite, conseguiu atravessar a última parede...
Subiu grande fumaceiro. Parede das grossas, pedra bruta, mármore e calcário. Um fio minava do escuro, mal desenhando um senhor vestido em uma túnica azul, seguro de um cajado e um cordeiro, os olhos sobre Jorge. O rapaz encolheu os ombros; já esperava as reações, impropérios; seria expulso às bofetadas; até serrou os olhos e os punhos. Estava exausto, tossia goles de argamassa e tinta, amparando a carcaça no porrete virado para o chão; e o outro, sem apresentar reação adversa, consentia-lhe a entrada. Um meio sorriso, uma saudação cavalheira.
No céu ciclope, o desenho das coisas era o tal mordomo agigantado, enormes colunas vaporosas, minúsculos pontos de mofo dançando no ar revirado. Nada mais inquietante e mais familiar. Era agora cumprir com a lista, que tirou do bolso, amassadinha. Não achou interruptor, por mais que corresse as mãos nas paredes. Os fachos que escorriam em diagonais, por enormes vitrais, irradiavam também um altar, um lance de bancos enfileirados. Os pés calçavam a frieza sóbria do mármore, alcançavam os tacos, ranger das escadas que se dobravam quase íngremes, as nervuras do corrimão assombroso e excitante. Do altar se entrevia uma nave, a forma plástica de uma mulher. –Minha primeira candidata, e antes de terminar as arrumações do apartamento!
Direcionando o rol num ponto iluminado, o homem correu a vista pelos nomes do papel. Cada item era minuciosamente examinado. Em seguida, percorriam a arte fria feminina. Sim, havia acertado em cheio, que sorte aquela! Singelo sorriso, o rosto perfilado, extenso véu cobrindo-lhe a testa, descendo em cauda pelas costas. Jorge só precisava convencê-la de suas vantagens, de que era homem garboso, formado em Direito. Conversariam horas sobre as injustiças de seu ofício de escriturário do Leitão Trabalhista, e ela o consolaria. Tudo fora pensado. O apartamento estava quase pronto. Os últimos retoques fariam juntos, precisava da sorte feminina em alguns cômodos.
Houve falta em alguns quesitos, mas ela agradou: era singular, não tinha os vícios das mulheres vulgares do bairro. Ele investigava o tecido cândido das pequeninas mãos, as finas unhas sem cores. Ajeitou a franja do cabelo, puxou o terno amarrotado para baixo, enfileirando o colarinho.
Havia duas grandes velas, em nichos nas paredes, nos lados da mulher. E esses pontos, iluminados que estavam, revelavam, de um lado, os contornos no vestido da madame, azul com linhas de dourado, e de outro, uma criança nos braços. -Um filho! Disse o homem em voz alta. Em retorno do eco, um canto de luz se acendeu. Alguém caminhava em sua direção sob círculo de candeeiro, atravessando um corredor. A decisão precisava ser rápida, já se aproximava um rival. Jorge nunca brigou por nada na vida, perderia na peleja, na certa. Tinha que agir dessa vez, contrair os punhos, enrugar a testa. Mas já se viu com a dama nos braços, descendo feito uma bala as escadarias, seguindo os pontos iluminados até a figura amigável da chegada, que apontava para a saída. Ao longe, luzes acesas, o capelão gritava: Roubaram a santa, roubaram a santa, acuda Nossa Senhora!
Ninguém o deteve, as paredes foram novamente rebocadas com pedaços de tijolo, cacos de azulejo e massa, estariam a salvo no apartamento. Ali mesmo o rapaz relaxou-se com a dama nos braços e adormeceu. Um sono macio e morno, e lá estavam eles, em cada ponta do sofá. No céu uma grande bola de fogo, e sons de trombeta:
-Fale de seu dia! Sentenciou o menino, erguendo-se do colo da mulher.
-Minha existência tem sido tão pouco, falar de quê?... Circunlóquios, tautologias... A doce planura dos jardins suspensos cheios de devassidão. Ló é que fez certo quando escapou de Sodoma e Gomorra. Não quero virar estátua de sal... O mundo adoeceu, e os manuais já não me servem. De lê-los me caíram quase todos os dentes.
-E essa feitiçaria? Questionou a dama.
-É um pecadinho. Brinco de Criador e escolho a mulher que me servirá. Quando Você vislumbra uma saída eles te chamam cego. Sempre acreditei na justiça da raça, crença genealógica e natural, madureza e velocidade. Mas não sabia o que era viver só. Depois freqüentei templos, fui excomungado por perversão. Entre o defunto e o bicho que lhe rói o osso há nada? Bah! Ensinaram-me a devorar livros. Eu quero a minha recompensa. O suor, noites de sono. As pessoas me desprezam na rua, e riem baixo me apontando com os narizes.
-Por amor a mim tantos se alquebram (Diz o garotinho)
-Já não tenho tamanha fé. Um dia desses, num dos meus pesadelos noturnos, vi enormes caveiras, ternos e vestidos finos, dançando em círculos, em círculos, em círculos... Até onde pode um homem suportar tamanho suplício? É preciso começar uma outra coisa. Estou fazendo minha parte, entendem. Mereço ter bons descendentes, vocês não acham? Eu devo acreditar na família.
Os pingos na testa o despertaram. Achegou-se à janela, afastou rebocos com os pés, o jornaleiro passava. –Ô rapaz, chaga mais! Custou ao homem acreditar. Coçou dos olhos, deu um riso aguado e subiu as escadas... Conversaram quase nada. -Pode ficar com esse exemplar de graça! Disse o jornaleiro, sem disfarçar a agonia em ver Jorge sujo e rasgado, a desordem do lugar. -Não vá ainda! Instante, quero que sejas o primeiro a conhecer uma pessoa. A imagem foi posta no meio da sala. -Eis minha noiva, não parece uma santa?! O vendedor não teve palavras. O sumiço da estátua era a notícia que corria as bocas e estampava a capa do jornal do dia. -Ela não é de muita conversa, mas jeitosa e disciplinada. Despediram-se. O jornaleiro desceu as escadarias apressado e decidido a denunciar o homem, afinal, aquilo era um pecado terrível. -Meu Deus, com menino Jesus e tudo! Disse entre baforadas, já no térreo. Uma criança, no momento, traspassou as fitas e adentrou a sala de Jorge. Arregalou os olhos, escapuliu, novamente. Minutos depois, descia embasbacada uma moradora do andar de cima. -Misericórdia! A mulher ajoelhou-se diante da imagem, fez um sinal de cruz e saiu atarantada. Em minutos o prédio se enchia. Algumas pessoas traziam velas, a zeladora achegou-se com baldes e vassouras, um morador menos afeito se indignava: -Loucos! Sob a santa, entre gritos e louvores, erguia-se um altar. Jorge se apequenava, encurralado entre o povo que se aglomerava com terços e bíblias na sala pequena. Uma senhora aproximou-se do síndico e apontando com os olhos o pobre rapaz espremido no canto da parede, fez comentário. Os cochichos se cruzavam, os olhares...
A imagem foi escondida e tomado por louco também o Jornaleiro, escoltado pela polícia junto com Jorge e encerrados numa cela.
No apartamento, um entra e sai de moradores constante e silente: fecha-se a porta. Horas depois alguém se alivia, em lágrimas. Nunca se viu tamanha felicidade. Romarias são feitas às madrugadas, meninos vestidos de anjo, um morador do quinto andar foi tomado por guardador emérito, o médico do lado veste a batina e celebra missas aos domingos. Uma vez por semana a santa descansa num apartamento diferente que se muda em capela. Ladainhas são ouvidas. Viver nunca foi tanto. O mistério do sumiço ainda beira as manchetes. Ninguém viu nada e a basílica nunca serviu a tão poucos fiéis.
Lá no cemitério, falanges cavam a terra fofa, é noite de baile...
Jorge saiu ontem do cárcere, aproximou-se e apaixonou-se pelo bonecão do posto de gasolina da esquina. Como já ocorrera antes com a boneca inflável do sex shop, vai armar um novo plano.
Outubro de 2008
SONATA
Gritos e sussurros
Fechava as portas da casa vazia, o descostume, o sussurro do vento nas frestas. A sonata, os dedos calmos num piano negro. E se oco era eco era o alinho e as folhas secas, o outono chegado nas surpresas de quem só aquieta com ele. Ele enviara a última carta há três meses, que era lida todas as manhãs como primeira, como última, feito partida e sangue em ferida com navalha cega. A moça, arrumadeira, chegara, varria, ocultava-se, batia de propósito em algum cômodo da casa. A noite já caiu, a névoa gelava corrimãos:
-O gato do relógio, da sonata de Beethoven, inquietantes, tire-se...Sai!
Degraus de aço, pesadas correntes, a mulher enrola-se com cordas no pescoço. O nariz adunco encostado em todas as janelas da casa, restava sair, atirar-se feito os corvos, além da vista, remendando panos úmidos e nunca usados, pequena mala, sair da fazenda no inverno rigoroso. Sem coche, até às luzes, a cidade distante e ainda mais fria, e ainda mais cortante.
-O homem nunca volta, ela saiu...
O corpo se atirou nos degraus escurecidos, as escadarias, uns olhos.
-Não vacile moça, isso é lugar de mulheres fáceis, muitas prostitutas.
Ela o viu, barba sem fazer, muitas doses de whisky, muitas gargalhadas. Mas havia muitos dele, às dezenas, uns rindo, outros jogados sobre as polacas. Todos eram capitães, e se lançavam sobre as coxas, entre os espartilhos. Ela, assim criada em modos de boneca, na finura das damas, em meio às cortesãs. Só restava pegar seu homem de volta, ele era todos.
-Isso não é lugar para mademoisele, (entre risos, diz uma ruiva, de cigarrilha, enorme cabelo enovelado)
E sob olhos aturdidos seus braços tornaram –se menores, as aflições passaram a gritos e apelos sussurrados, a noite apequenava-se, e sob labaredas e doses o dia nasceu com um brilho cortante, mas plácido, nada visto antes. Ninguém voltou, nem mesmo a fazenda.
Os sapatos deixados nos soalhos, o corpo jogado sobre a cama. Como voltara, não se sabe. A náusea, as estocadas na cabeça, a dor cansada da luz nos azuis dos olhos.
- Arrumo Senhora?
- Não!
O Ele novamente ficou, nos bares. Mas agora ela o tinha quando quisesse, quando bem merecesse.
A Forquilha
A FORQUILHA
Na pocilga, os joelhos enterrados na terra pouco marrom, o menino descansa. Havia sido assim ontem mesmo, no celeiro, entre ovos não fecundados. Coração partido de criança misturado à merda dos bichos. E era assim que a mãe não entendia. Ele estava perto de meter a cara toda, quando ela o chamou, com triste assovio. Os porcos ressabiados encostam-se nas talas, as forquilhas nos pescoços largos de bicho de corte. O menino não ouviu nada, lavou a cara entre eles e sua sirene silenciosa rasgava quatro cantos de fazenda, terra e gente pequena, miúda mesmo, miúda como pintos não fecundados.
Eu vivi durante aqueles longos anos como um padre, a cara enfiada entre coxias, sem livros, sem quereres, na donzelice dos meus doze anos. A viagem para fora foi o som da doce voz da minha mãe, tão longe. Entre buzinas de carro, longe das rodas de bois, deixei o sitio para trás.
Voltei à fazenda alguns poucos anos depois, acompanhava a extrema unção de mamãe com desespero. A cidade só me deu um diploma de garçom, uns poucos trocados, e a sensação, essa sim, sem preços, de que o mundo era grande.
Estava recostado à janela quando ela, falecendo pelas mãos me disse para cuidar de tudo aquilo, dos pobres porcos pacientes, da degola das galinhas e dos pintos, da uma vaca que tínhamos. Estava eu, novamente, entre vaias, num momento inoportuno.
Ah, vontade de tanger aqueles bichos rumo do nada, para fora deles mesmos, para longe de minha vista. Minha esposa esperava filho, e ficara na cidade. Bem que quisera vir, mas o medo de que tivesse o interesse igual ao de minha mãe foram meus retruques, meus coices.
Ver agora que só eu estou aqui, eu e eles, me dá vontade de correr e meter a cara na lama outra vez, desaparecer na terra movediça que me despedaça porcos inteiros.
Até que um deles entrou, um leitãozinho sem forquilha, que escapuliu entre uns barrotes da cozinha. Eu não tive tempo algum, e ele já era bicho dentro, afogueado, sacudiu-se em meio às cinzas do fogão, como se quisesse a morte:
- Então, é você? Você? (risos ronronados)
- Faça favor, continue seu sacrifício.
- Você não é homem sequer para me poupar esse trabalho, impedindo-me? Ou melhor ainda, para dar cabo de mim duma vez? Veja meus cascos, seu imbecil, eu não tenho cinco dedos, e você tem vantagens e mais vantagens... Seja homem uma vez na vida e cumpra a promessa que fez ao seu velho, há anos. Largue-se no mundo!
(Dizendo assim, o animal sacudiu as cinzas do dorso, e se foi, focinho crispado para cima)
II
Eu, a cinza dos automóveis e um cão que me persegue fomos juntos à parada de ônibus, lá havia algum jornal, e rostos.
Aquela cidade não o acolhia, cuspia-o fora, coisas indigestas, vários anos num vagar, espremendo-se entre mendigos, vendendo cigarros fumados na 25 de Março. O filho que nunca viu já era rapaz, talvez formado, talvez garçom, talvez fazendeiro.
****Mas a casa, a sebe estava lá, lugar ermo, aquilo não se compra mesmo!
Língua de cão para fora reticente...
Mas de tanta passada, um dia desses, ele chegou lá de novo. Sedento, magrelo. E dezenas, quiçá centenas de porcos o esperavam no alpendre; apenas um deles trazia a forquilha, e delicadamente, e entre ronrons, entregou-a ao pobre viajante. O cão atirou-se na frente, em sua defesa:
- Ah, bicho lazarento, então era isso, eram essas as promessas, era isto o que te esperava! Cresceram tumor, erva de passarinho, rodeando a casa, por entre os móveis, sobre os telhados, deitam-se imundos nas sobras de alcatifa, nos sofás manchados.
- A tua chegada é aguardada há décadas. É hora de cumprir os mandos de mãe. Nem se precisa dizer de que pão comeste na vida. E esse pobre cachorro te serve de guia? Tua cama foi arrumada com zelo, panos limpos, água nova de minadores.
Heloísa
HELOÍSA GRITA
O tempo corroeu a janela da minha casa vazia. Vaga de sonhos, Heloisa separa as roupas. O homem que acabou de entrar respirou fundo, recostou os sapatos no batente da porta, viu-se livre à noite, sem chaves. Ela já contou discussões, está taciturna e demente, preferiu esperá-lo, só para vê-lo: a vaga ânsia dos casais de namorados. Repletos os filhos, cheios de porta-retratos. A casa revestiu-se de um perfume ocre. Entre os olhos dela, o marido esticado no sofá, a dança desafinada, as roupas escondendo pequenas jóias, pequenos furtos, tão alvas. A criança que olhou pela janela está coberta de satisfações: ingenuamente espera os ovos fritos, as bandas de pão, a criança esperando. A outra ouviu choro durante a noite, pequenas promessas de nunca mais, e recobrou a cabeça no travesseiro áspero da incerteza, consolando um urso. O samba da gafieira ainda é quente, o homem, mistura de perfumes. Heloisa foi sempre bem tratada, mas a amargura dos últimos dias tem asfixiado feito cinzel, talha de madeira grossa.
Ontem eu ardi, mas de tantos tremores e fervores que elas eram mil e se requebravam tais as mulatas do Prestimoso. Uma delas disse sou Luisa: a dor da casa que me espera, os cães que nunca dormem e me roçam a virilha. Ela sentou-se, e as baforadas eram quentes os quartos da mulata mais roliça, cheia de dengos. Os meus relógios eram os abajures, e o rodopio da música deliciosa das putas todas. Quase me esqueci do tal remédio, os pequenos comprimidos debaixo da língua que roça a língua da Luisa. Umas doses, outros sabores e eu era um rico fazendeiro, e compartilhava dos risos dos outros ricos fazendeiros ao meu redor, aumentando as suas péssimas riquezas.
Um menino saiu, os seus olhos seguiam o pai. Dobrando esquinas o menino encurralava o pai no delito. A dama chegou-se beijando delicada o homem que ri. Ele está entrepostes e observa aquelas carnes, também vacilando. Eram os sonhos perturbadores dos adolescentes, o falso urso imprestável que o aguarda. A mãe já recolhia a roupa no varal. Ele não podia dizer, tinha algo mágico que ele não entendia e que não podia dizer, a mente decrépita, a pueril lembrança?O que conduz o menino?
Heloisa de poucos risos, as aspirinas na palma da mão. Ela sabe que aquele perfume todo é para as polacas do Prestimoso: abre delicadamente a caixinha de remédios, e planta lá os outros.
Não são os ovos, eu entendo muita coisa, as pipas me esperam cantos de parede. A solidão da minha pobre mãe. Ela arrumou a mala de novo, não brigou, nem chorou que eu visse. Meu pai nem levantou. As horas nos relógios da casa estão eternizadas naquela cena: Heloisa pôs-se de pé, espera a agonia do marido, espera que ele esteja morto, mas ele ainda ronca. A vida falhou com ela, a vida que escorreu ontem, a certeza dúbia de que se está perdendo a batalha.
Nas porradas que Heloisa levou havia algo de suave e frio. Ele passou dois dias na farra, e os meninos dois no canto, pedacinhos perdidos na sala que berra, que grita. Eles queriam ser grandes, para livrar-se daquele velho, para matá-lo, para enterrá-lo de uma vez....A mão certa, a delicadeza da mão de menino, é capaz de tostar as roupas do varal.
O apito da fábrica berra, a semana se ergue parede, Heloísa é uma vaga lembrança, um céu azul, e sacodem os ventos das roupas perfiladas do varal do Prestimoso, e tudo é fluído.
Saudações!!!
Sejam Bem vindos ao meu humilde quarto e sala virtual. É nesse meio de bagunça que postarei, aos poucos, alguns dos contos que me atrevo a escrever naquelas noites de mosca inquietante, de puga atrás da orelha, e de fuga da realidade mais tangível...Espero que se agradem, ou que não se agradem, mas comentem!!!
Obrigado!Edney Belo
Obrigado!Edney Belo
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