Gritos e sussurros
Fechava as portas da casa vazia, o descostume, o sussurro do vento nas frestas. A sonata, os dedos calmos num piano negro. E se oco era eco era o alinho e as folhas secas, o outono chegado nas surpresas de quem só aquieta com ele. Ele enviara a última carta há três meses, que era lida todas as manhãs como primeira, como última, feito partida e sangue em ferida com navalha cega. A moça, arrumadeira, chegara, varria, ocultava-se, batia de propósito em algum cômodo da casa. A noite já caiu, a névoa gelava corrimãos:
-O gato do relógio, da sonata de Beethoven, inquietantes, tire-se...Sai!
Degraus de aço, pesadas correntes, a mulher enrola-se com cordas no pescoço. O nariz adunco encostado em todas as janelas da casa, restava sair, atirar-se feito os corvos, além da vista, remendando panos úmidos e nunca usados, pequena mala, sair da fazenda no inverno rigoroso. Sem coche, até às luzes, a cidade distante e ainda mais fria, e ainda mais cortante.
-O homem nunca volta, ela saiu...
O corpo se atirou nos degraus escurecidos, as escadarias, uns olhos.
-Não vacile moça, isso é lugar de mulheres fáceis, muitas prostitutas.
Ela o viu, barba sem fazer, muitas doses de whisky, muitas gargalhadas. Mas havia muitos dele, às dezenas, uns rindo, outros jogados sobre as polacas. Todos eram capitães, e se lançavam sobre as coxas, entre os espartilhos. Ela, assim criada em modos de boneca, na finura das damas, em meio às cortesãs. Só restava pegar seu homem de volta, ele era todos.
-Isso não é lugar para mademoisele, (entre risos, diz uma ruiva, de cigarrilha, enorme cabelo enovelado)
E sob olhos aturdidos seus braços tornaram –se menores, as aflições passaram a gritos e apelos sussurrados, a noite apequenava-se, e sob labaredas e doses o dia nasceu com um brilho cortante, mas plácido, nada visto antes. Ninguém voltou, nem mesmo a fazenda.
Os sapatos deixados nos soalhos, o corpo jogado sobre a cama. Como voltara, não se sabe. A náusea, as estocadas na cabeça, a dor cansada da luz nos azuis dos olhos.
- Arrumo Senhora?
- Não!
O Ele novamente ficou, nos bares. Mas agora ela o tinha quando quisesse, quando bem merecesse.
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