A FORQUILHA
Na pocilga, os joelhos enterrados na terra pouco marrom, o menino descansa. Havia sido assim ontem mesmo, no celeiro, entre ovos não fecundados. Coração partido de criança misturado à merda dos bichos. E era assim que a mãe não entendia. Ele estava perto de meter a cara toda, quando ela o chamou, com triste assovio. Os porcos ressabiados encostam-se nas talas, as forquilhas nos pescoços largos de bicho de corte. O menino não ouviu nada, lavou a cara entre eles e sua sirene silenciosa rasgava quatro cantos de fazenda, terra e gente pequena, miúda mesmo, miúda como pintos não fecundados.
Eu vivi durante aqueles longos anos como um padre, a cara enfiada entre coxias, sem livros, sem quereres, na donzelice dos meus doze anos. A viagem para fora foi o som da doce voz da minha mãe, tão longe. Entre buzinas de carro, longe das rodas de bois, deixei o sitio para trás.
Voltei à fazenda alguns poucos anos depois, acompanhava a extrema unção de mamãe com desespero. A cidade só me deu um diploma de garçom, uns poucos trocados, e a sensação, essa sim, sem preços, de que o mundo era grande.
Estava recostado à janela quando ela, falecendo pelas mãos me disse para cuidar de tudo aquilo, dos pobres porcos pacientes, da degola das galinhas e dos pintos, da uma vaca que tínhamos. Estava eu, novamente, entre vaias, num momento inoportuno.
Ah, vontade de tanger aqueles bichos rumo do nada, para fora deles mesmos, para longe de minha vista. Minha esposa esperava filho, e ficara na cidade. Bem que quisera vir, mas o medo de que tivesse o interesse igual ao de minha mãe foram meus retruques, meus coices.
Ver agora que só eu estou aqui, eu e eles, me dá vontade de correr e meter a cara na lama outra vez, desaparecer na terra movediça que me despedaça porcos inteiros.
Até que um deles entrou, um leitãozinho sem forquilha, que escapuliu entre uns barrotes da cozinha. Eu não tive tempo algum, e ele já era bicho dentro, afogueado, sacudiu-se em meio às cinzas do fogão, como se quisesse a morte:
- Então, é você? Você? (risos ronronados)
- Faça favor, continue seu sacrifício.
- Você não é homem sequer para me poupar esse trabalho, impedindo-me? Ou melhor ainda, para dar cabo de mim duma vez? Veja meus cascos, seu imbecil, eu não tenho cinco dedos, e você tem vantagens e mais vantagens... Seja homem uma vez na vida e cumpra a promessa que fez ao seu velho, há anos. Largue-se no mundo!
(Dizendo assim, o animal sacudiu as cinzas do dorso, e se foi, focinho crispado para cima)
II
Eu, a cinza dos automóveis e um cão que me persegue fomos juntos à parada de ônibus, lá havia algum jornal, e rostos.
Aquela cidade não o acolhia, cuspia-o fora, coisas indigestas, vários anos num vagar, espremendo-se entre mendigos, vendendo cigarros fumados na 25 de Março. O filho que nunca viu já era rapaz, talvez formado, talvez garçom, talvez fazendeiro.
****Mas a casa, a sebe estava lá, lugar ermo, aquilo não se compra mesmo!
Língua de cão para fora reticente...
Mas de tanta passada, um dia desses, ele chegou lá de novo. Sedento, magrelo. E dezenas, quiçá centenas de porcos o esperavam no alpendre; apenas um deles trazia a forquilha, e delicadamente, e entre ronrons, entregou-a ao pobre viajante. O cão atirou-se na frente, em sua defesa:
- Ah, bicho lazarento, então era isso, eram essas as promessas, era isto o que te esperava! Cresceram tumor, erva de passarinho, rodeando a casa, por entre os móveis, sobre os telhados, deitam-se imundos nas sobras de alcatifa, nos sofás manchados.
- A tua chegada é aguardada há décadas. É hora de cumprir os mandos de mãe. Nem se precisa dizer de que pão comeste na vida. E esse pobre cachorro te serve de guia? Tua cama foi arrumada com zelo, panos limpos, água nova de minadores.
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