O Descomeço
Trago-me a braço até a beira do açude. Com lodo e algum esforço procuro, joelhos dobrados, beber da água salobra, como fazia em menino. Não consigo. Pequenos pontos de sol, mergulhado, cheiro de raízes, o vento sertão, vaca magra e paisagem de graveto e espinho. Por que vim? Família já miúda, sem axego, nem daria pela falta. Passadas horas, já beiram a embriaguez e começa a sabatina. Vamos nos olhar os quatro, afiados, olhos e línguas, e nos converteremos em grossas lâminas. João vai por a última dose, vai chorar, dizer que matamos pai e mãe. Eu, que não bebi muito, não terei como negar. Conheço-os, estão me esperando; Zica na porta, descascando uma laranja, enxerga o monte, formações de tabuleiro, com seus olhos aquilinos, azeita perguntas difíceis de resposta. Fiquei por responder algumas, sobre o passado.
Penduramos cartucheiras, pomos matulões e cangalhas. Há muita coisa na vida sem resposta. Mazé beijará minhas mãos, dirá palavras de conforto, mostrará fotografias dos seus sete filhos, cortará fatia de bolo. Eu, o mais velho, recebi de pai a obrigação da criação dos menores: João de braço, Zica feia feito reboco de parede ao lado da nossa mãe já tão doente,e Mazé, varrendo o chão de barro batido. Um mês depois que minha mãe morreu, nosso pai a seguiu, crente de que eu cuidaria dos pequenos. Agora estão lá, à minha espera, sob bico de gás, cotovelos sobre a mesa. Eu me escondi a vida toda, fugi às obrigações, traí o pai.
Sempre que chove ficam ziguezagueando no soalho da cozinha dezenas de varejeiras, de um azul-espelho, esperam a liquefação de nossa carne para fazê-la massa para as gordas larvas que tombam. Abrem-se portas, os meus suores contidos em pequenas caixas amontoadas que formam colunas...
{De repente não mais ouço, só espaço a espaço [Por que me olham como se as penas fossem apenas foices minhas? Eu trouxe boas novas. Eu, que tenho perambulado por aí, ser sem juízo, cogito a possibilidade de, um não sei que de negação de vocês. Demorou, mas eu me desfiz de seus porta-retratos e da sombra inquisidora do pai. (Ontem enterramos papai entre rezas e ladainhas. Zica cobre o rosto com um véu negro, mas ainda é uma velha num corpo de criança. João dorme entre panos nos meus braços. Eu vejo Mazé cuidar do velório feito mulher feita, acho que vai casar logo. Zica abandona o véu e segue rumo à cova com algumas flores de mato, acho que xananas) Eu me importo com o que os outros dizem. O Zé Morais não perdoou, castigou mais que pode, roubou rês de nosso quinhão] Eu, prostrado, só cruzo o batente com a permissão dos três. O Zé Morais aproveitou-se do nosso sofrimento e comprou quase que toda nossa terra, restou só a casinha e a cerca, bicho tinhoso}.
Têm agora ar de sofrebundos, lanhos pelos coros. Zica está ainda mais feia, enviuvou de pistoleiro. Derradeiro ano, de fúria e faca, tombei o Zé Morais. Dia cinzento, palavra uma, só o verme estirado, nos cortes. Aberei rumo do Riacho das Almas; tive febre, tive pesadelo, dormi numa tapera. Pés de chumbo, caminho repleto de cacos de vidro fininhos, ruins de tirar. Zica me viu e adentrou, estava espixada na parede, mirou de longe, foi avisar. Tenho a cara no quadrado que é a casa. Mazé agiganta-se perto do fogo de lenha, quase sem dentes. Posso imaginar o que dirão antes que principiem um teco:
Mazé sentará, oferecerá colo e meio sorriso. Zica dirá que é rameira e que tenho parte nisso. João cedeu meio corpo à mesa e ronca.
- Ah, chegou o mascate. Veio tripudiar, Mazé. Acha pouco ter vendido as terras e ter arribado pro Sul.
As duas tomam lugar a mesa. Sento-me de frente ao meu irmão.
- Mas quê que não, ele tá fugido. Deveras fosse notícia chã. É nada, conversa fiada. Ele pensa que derrubar o Zé Morais valesse tudo de volta. O que me admira Mazé é a cara de tacho. E nunca disse o que fez com o dinheiro das terras lá em Sam Paulo. Sofri o cão nas mão do Sivino. Teve de morrer, o diacho. Agora, carece nada não.
Mazé estica a mão sobre a minha, acaricia um tempo, pede que eu não ligue, que é descarrego. João acorda, indefesa criança que abandonei há trinta anos. Mazé entoa uma loa. As moscas brilham no soalho.
O tanto que os bodes mascam raiz à caça d´água ele segundou. Ganhou rumo, nunca faltou dia em que não pensasse nos irmãos, derrubasse lágrima. A noite vem mansa, interrogadora. Mazé é vazio, uma sobra de riso, balão cheio de calor. João se afasta e se recosta a parede do quintal, tem medo, não lhe sobraram culpas nem vontades. Aceitou fácil, derreia a cabeça, senta no chão ao lado do girau. Zica se foi chorosa e prometendo nunca mais voltar. Mazé me chamou, vimos juntos a lua cheia:
- Nós somos flor miúda, Mazé, duramos pouco, espaço de um acender e apagar de sol.
João também se foi. Acordei triste-só, pequenas fotos 3x4 nas mãos, no beco, em meio a sacos de lixo, no colo de Mazé, agora fria, que se despedaça.
2007
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