quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Heloísa

HELOÍSA GRITA

O tempo corroeu a janela da minha casa vazia. Vaga de sonhos, Heloisa separa as roupas. O homem que acabou de entrar respirou fundo, recostou os sapatos no batente da porta, viu-se livre à noite, sem chaves. Ela já contou discussões, está taciturna e demente, preferiu esperá-lo, só para vê-lo: a vaga ânsia dos casais de namorados. Repletos os filhos, cheios de porta-retratos. A casa revestiu-se de um perfume ocre. Entre os olhos dela, o marido esticado no sofá, a dança desafinada, as roupas escondendo pequenas jóias, pequenos furtos, tão alvas. A criança que olhou pela janela está coberta de satisfações: ingenuamente espera os ovos fritos, as bandas de pão, a criança esperando. A outra ouviu choro durante a noite, pequenas promessas de nunca mais, e recobrou a cabeça no travesseiro áspero da incerteza, consolando um urso. O samba da gafieira ainda é quente, o homem, mistura de perfumes. Heloisa foi sempre bem tratada, mas a amargura dos últimos dias tem asfixiado feito cinzel, talha de madeira grossa.


Ontem eu ardi, mas de tantos tremores e fervores que elas eram mil e se requebravam tais as mulatas do Prestimoso. Uma delas disse sou Luisa: a dor da casa que me espera, os cães que nunca dormem e me roçam a virilha. Ela sentou-se, e as baforadas eram quentes os quartos da mulata mais roliça, cheia de dengos. Os meus relógios eram os abajures, e o rodopio da música deliciosa das putas todas. Quase me esqueci do tal remédio, os pequenos comprimidos debaixo da língua que roça a língua da Luisa. Umas doses, outros sabores e eu era um rico fazendeiro, e compartilhava dos risos dos outros ricos fazendeiros ao meu redor, aumentando as suas péssimas riquezas.



Um menino saiu, os seus olhos seguiam o pai. Dobrando esquinas o menino encurralava o pai no delito. A dama chegou-se beijando delicada o homem que ri. Ele está entrepostes e observa aquelas carnes, também vacilando. Eram os sonhos perturbadores dos adolescentes, o falso urso imprestável que o aguarda. A mãe já recolhia a roupa no varal. Ele não podia dizer, tinha algo mágico que ele não entendia e que não podia dizer, a mente decrépita, a pueril lembrança?O que conduz o menino?


Heloisa de poucos risos, as aspirinas na palma da mão. Ela sabe que aquele perfume todo é para as polacas do Prestimoso: abre delicadamente a caixinha de remédios, e planta lá os outros.


Não são os ovos, eu entendo muita coisa, as pipas me esperam cantos de parede. A solidão da minha pobre mãe. Ela arrumou a mala de novo, não brigou, nem chorou que eu visse. Meu pai nem levantou. As horas nos relógios da casa estão eternizadas naquela cena: Heloisa pôs-se de pé, espera a agonia do marido, espera que ele esteja morto, mas ele ainda ronca. A vida falhou com ela, a vida que escorreu ontem, a certeza dúbia de que se está perdendo a batalha.


Nas porradas que Heloisa levou havia algo de suave e frio. Ele passou dois dias na farra, e os meninos dois no canto, pedacinhos perdidos na sala que berra, que grita. Eles queriam ser grandes, para livrar-se daquele velho, para matá-lo, para enterrá-lo de uma vez....A mão certa, a delicadeza da mão de menino, é capaz de tostar as roupas do varal.

O apito da fábrica berra, a semana se ergue parede, Heloísa é uma vaga lembrança, um céu azul, e sacodem os ventos das roupas perfiladas do varal do Prestimoso, e tudo é fluído.  

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