quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

O Santo e o Dragão


O santo e o dragão

O apartamento cubículo está com manchas e rachaduras enormes e com Jorge numa das quinas, sentado, o único móvel. Os movimentos se resumem às unhas na barra da calça, o olhar envelhecido para o ângulo da janela. Não dormiu bem outra vez. Teve aquele sonho medonho das caveiras, das covas abertas... Sem outros parentes que o reconheçam, ele resta só. Na parede, uma pintura e um diploma. Jorge esteve, algumas horas atrás, com o jornaleiro:
-Sinto náuseas, ânsia de vômito, e folheio literatura, e nada... Senta um pouco e ouve, compro outro jornal. Você é o único que ainda aparece nessa sala, mesmo... Não vou à repartição há dias; eles nem ligaram perguntando, nem carta do correio, não se dão ao trabalho... Sabe, ando tendo umas idéias. Tomei uma decisão, entende. Vou pôr uma mulher nessa casa... E não é qualquer mulher dessas da rua, não, quero currículos, currículos. Vê só a lista que fiz. Uma donzela que saiba de tricot e costura, faça bom macarrão e sobremesas com pouco açúcar, sem vícios. Deve falar pouco, ser solícita... Resignada e... Ah, ter temperança, fidalguias... Mas, para trazê-la pra cá preciso tomar umas providências, dar um jeito nesse lugar, arrumar um sofá, um lençol de casal, umas cervejas...
Noventa graus de sol quando Jorge pôs os pés fora. A luz forte mal distinguia seu juízo e sua ânsia de voltar logo. Retornou com uma sacola com tesouras, agulhas, pedaços de tecido, duas latas de cerveja, esmaltes, até talheres e uns óculos de sol... E uma marreta. Uma reforma deveria começar pelas paredes, ele pensou, e tratou de por abaixo as infiltrações a marretadas. Os golpes ligeiramente abriram rombos, os rebocos e tijolos cavados amostravam vergalhões e canos, de onde começou a verter a água que lavou o chão, pôs baratas em vôo, causando o espanto dos vizinhos, já no saguão do prédio, planejando um fim praquilo. O barulho e o aguaceiro que descia pelas escadarias já atingiam outros apartamentos. Insetos e jornais velhos desciam pelas escadas, saindo pela porta da sala, entreaberta. Em pouco tempo, uma nuvem branca subia da janela, enquanto Jorge acertava tudo que era vértice. Quando as pancadas atingiram a fiação, um blecaute liquidou com a iluminação do prédio todo, e já se ouviam as sirenes dos bombeiros no quarteirão ao lado. Uma multidão se reunia dos lados de fora do prédio, e os soldados subiam ligeiros as escadas até o terceiro andar onde morava o rapaz... As estocadas haviam cessado... Um bombeiro, com pose de agente de polícia se esgueirava por entre os destroços, chamando o nome Jorge com força... Para espanto, e indignação geral, o guarda saiu de mãos vazias, não havia ninguém. O local foi devidamente traspassado por fitas amarelas de interdição. Ajeitada a fiação e limpo o ambiente, as coisas voltavam a sua normalidade.
            No entanto, no banheiro, negligenciado pelos bombeiros, um enorme buraco havia sido feito. Quebrados azulejos formavam a boca por onde Jorge tinha passado, e de onde, no inicio da noite, conseguiu atravessar a última parede...
 Subiu grande fumaceiro. Parede das grossas, pedra bruta, mármore e calcário. Um fio minava do escuro, mal desenhando um senhor vestido em uma túnica azul, seguro de um cajado e um cordeiro, os olhos sobre Jorge. O rapaz encolheu os ombros; já esperava as reações, impropérios; seria expulso às bofetadas; até serrou os olhos e os punhos. Estava exausto, tossia goles de argamassa e tinta, amparando a carcaça no porrete virado para o chão; e o outro, sem apresentar reação adversa, consentia-lhe a entrada. Um meio sorriso, uma saudação cavalheira.
No céu ciclope, o desenho das coisas era o tal mordomo agigantado, enormes colunas vaporosas, minúsculos pontos de mofo dançando no ar revirado. Nada mais inquietante e mais familiar. Era agora cumprir com a lista, que tirou do bolso, amassadinha. Não achou interruptor, por mais que corresse as mãos nas paredes. Os fachos que escorriam em diagonais, por enormes vitrais, irradiavam também um altar, um lance de bancos enfileirados. Os pés calçavam a frieza sóbria do mármore, alcançavam os tacos, ranger das escadas que se dobravam quase íngremes, as nervuras do corrimão assombroso e excitante. Do altar se entrevia uma nave, a forma plástica de uma mulher. –Minha primeira candidata, e antes de terminar as arrumações do apartamento!
            Direcionando o rol num ponto iluminado, o homem correu a vista pelos nomes do papel. Cada item era minuciosamente examinado. Em seguida, percorriam a arte fria feminina. Sim, havia acertado em cheio, que sorte aquela! Singelo sorriso, o rosto perfilado, extenso véu cobrindo-lhe a testa, descendo em cauda pelas costas. Jorge só precisava convencê-la de suas vantagens, de que era homem garboso, formado em Direito. Conversariam horas sobre as injustiças de seu ofício de escriturário do Leitão Trabalhista, e ela o consolaria. Tudo fora pensado. O apartamento estava quase pronto. Os últimos retoques fariam juntos, precisava da sorte feminina em alguns cômodos.
Houve falta em alguns quesitos, mas ela agradou: era singular, não tinha os vícios das mulheres vulgares do bairro. Ele investigava o tecido cândido das pequeninas mãos, as finas unhas sem cores. Ajeitou a franja do cabelo, puxou o terno amarrotado para baixo, enfileirando o colarinho.
 Havia duas grandes velas, em nichos nas paredes, nos lados da mulher. E esses pontos, iluminados que estavam, revelavam, de um lado, os contornos no vestido da madame, azul com linhas de dourado, e de outro, uma criança nos braços. -Um filho! Disse o homem em voz alta. Em retorno do eco, um canto de luz se acendeu. Alguém caminhava em sua direção sob círculo de candeeiro, atravessando um corredor. A decisão precisava ser rápida, já se aproximava um rival. Jorge nunca brigou por nada na vida, perderia na peleja, na certa. Tinha que agir dessa vez, contrair os punhos, enrugar a testa. Mas já se viu com a dama nos braços, descendo feito uma bala as escadarias, seguindo os pontos iluminados até a figura amigável da chegada, que apontava para a saída. Ao longe, luzes acesas, o capelão gritava: Roubaram a santa, roubaram a santa, acuda Nossa Senhora!
            Ninguém o deteve, as paredes foram novamente rebocadas com pedaços de tijolo, cacos de azulejo e massa, estariam a salvo no apartamento. Ali mesmo o rapaz relaxou-se com a dama nos braços e adormeceu. Um sono macio e morno, e lá estavam eles, em cada ponta do sofá. No céu uma grande bola de fogo, e sons de trombeta:
-Fale de seu dia! Sentenciou o menino, erguendo-se do colo da mulher.
-Minha existência tem sido tão pouco, falar de quê?... Circunlóquios, tautologias... A doce planura dos jardins suspensos cheios de devassidão. Ló é que fez certo quando escapou de Sodoma e Gomorra. Não quero virar estátua de sal... O mundo adoeceu, e os manuais já não me servem. De lê-los me caíram quase todos os dentes.
-E essa feitiçaria? Questionou a dama.
-É um pecadinho. Brinco de Criador e escolho a mulher que me servirá. Quando Você vislumbra uma saída eles te chamam cego. Sempre acreditei na justiça da raça, crença genealógica e natural, madureza e velocidade. Mas não sabia o que era viver só. Depois freqüentei templos, fui excomungado por perversão. Entre o defunto e o bicho que lhe rói o osso há nada? Bah! Ensinaram-me a devorar livros. Eu quero a minha recompensa. O suor, noites de sono. As pessoas me desprezam na rua, e riem baixo me apontando com os narizes.
-Por amor a mim tantos se alquebram (Diz o garotinho)
-Já não tenho tamanha fé. Um dia desses, num dos meus pesadelos noturnos, vi enormes caveiras, ternos e vestidos finos, dançando em círculos, em círculos, em círculos... Até onde pode um homem suportar tamanho suplício? É preciso começar uma outra coisa. Estou fazendo minha parte, entendem. Mereço ter bons descendentes, vocês não acham? Eu devo acreditar na família.
Os pingos na testa o despertaram. Achegou-se à janela, afastou rebocos com os pés, o jornaleiro passava. –Ô rapaz, chaga mais! Custou ao homem acreditar. Coçou dos olhos, deu um riso aguado e subiu as escadas... Conversaram quase nada. -Pode ficar com esse exemplar de graça! Disse o jornaleiro, sem disfarçar a agonia em ver Jorge sujo e rasgado, a desordem do lugar. -Não vá ainda! Instante, quero que sejas o primeiro a conhecer uma pessoa. A imagem foi posta no meio da sala. -Eis minha noiva, não parece uma santa?! O vendedor não teve palavras. O sumiço da estátua era a notícia que corria as bocas e estampava a capa do jornal do dia. -Ela não é de muita conversa, mas jeitosa e disciplinada. Despediram-se. O jornaleiro desceu as escadarias apressado e decidido a denunciar o homem, afinal, aquilo era um pecado terrível. -Meu Deus, com menino Jesus e tudo! Disse entre baforadas, já no térreo. Uma criança, no momento, traspassou as fitas e adentrou a sala de Jorge. Arregalou os olhos, escapuliu, novamente. Minutos depois, descia embasbacada uma moradora do andar de cima. -Misericórdia! A mulher ajoelhou-se diante da imagem, fez um sinal de cruz e saiu atarantada. Em minutos o prédio se enchia. Algumas pessoas traziam velas, a zeladora achegou-se com baldes e vassouras, um morador menos afeito se indignava: -Loucos! Sob a santa, entre gritos e louvores, erguia-se um altar. Jorge se apequenava, encurralado entre o povo que se aglomerava com terços e bíblias na sala pequena. Uma senhora aproximou-se do síndico e apontando com os olhos o pobre rapaz espremido no canto da parede, fez comentário. Os cochichos se cruzavam, os olhares...
A imagem foi escondida e tomado por louco também o Jornaleiro, escoltado pela polícia junto com Jorge e encerrados numa cela.
No apartamento, um entra e sai de moradores constante e silente: fecha-se a porta. Horas depois alguém se alivia, em lágrimas. Nunca se viu tamanha felicidade. Romarias são feitas às madrugadas, meninos vestidos de anjo, um morador do quinto andar foi tomado por guardador emérito, o médico do lado veste a batina e celebra missas aos domingos. Uma vez por semana a santa descansa num apartamento diferente que se muda em capela. Ladainhas são ouvidas. Viver nunca foi tanto. O mistério do sumiço ainda beira as manchetes. Ninguém viu nada e a basílica nunca serviu a tão poucos fiéis.
            Lá no cemitério, falanges cavam a terra fofa, é noite de baile...
Jorge saiu ontem do cárcere, aproximou-se e apaixonou-se pelo bonecão do posto de gasolina da esquina. Como já ocorrera antes com a boneca inflável do sex shop, vai armar um novo plano.

Outubro de 2008

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